Recentemente pude participar de um torneio de futevôlei com os mais conceituados atletas da modalidade. Junto com muitos deles, seus filhos os acompanhavam. Confesso que ver uma rede só com crianças jogando me deixou extremamente feliz e orgulhosa a princípio. Mas, como sabemos e como eu sempre gosto de frisar, o esporte por si só não traz disciplina e educação para a criança, o que faz isso são todos os profissionais envolvidos com o esporte.

Para a minha infelicidade momentos após, pude perceber crianças bem novas (menos de 10 anos), extremamente soberbas, debochadas e sem respeito para com o próximo, independente da idade (do próximo). E mais, pude presenciar a cena de um pai falando para o seu filho no meio do jogo: “vai lá, esmaga a cara dela, saca só no gogó dela, sem pena, pode só dar porrada pra f*d*r com ela mesmo”, ao mesmo tempo que sorria achando graça e sentindo orgulho do que estava passando para seu filho.

Esse é um atleta do que chamamos da “série A” nessa modalidade, dando um exemplo de arrogância e falta de respeito não só para com seu adversário, mas para com o seu próximo. E, fora da quadra, passei um tempo observando aquelas crianças em suas conversas e na “redinha” que havia para ficarem brincando. Se alguém que chegasse na redinha não soubesse jogar direito, as crianças debochando e faltando com respeito, xingando e “mandando” sair dali. Não foram todas as crianças, mas posso dizer que foi a maioria. E essa grande maioria era filho de atleta da série A.

Gente, educação vem de casa! Nossos primeiros exemplos são os pais ou cuidadores. Muitos desses atletas acreditam que são professores, dão aula mesmo sem capacitação (graduação em educação física) e, obviamente, não colocam seus filhos com profissionais sérios, acreditam que eles mesmo possam ser seus professores, enquanto esquecem de exercer seu papel principal: pai ou mãe! E, por serem atletas consagrados no meio, em vez de passarem valores tão ricos que o esporte pode oferecer, ensinam o contrário.

Sem generalização, apenas observação do que pude ver com meus próprios olhos, especificamente, dentro dessa modalidade que tanto amo e pratico. Ao ponto de escutar a criança falando que “meu pai é fulano de tal, então, eu faço o que quiser…”. Isso é desesperador! É a próxima geração que deveria evoluir e aprender com os erros da geração passada, mas aprendendo exatamente a mesma coisa, só que mais cedo e sendo embasado por seus pais.

Quem dera poder ter alcance de chegar essa mensagem para todos esses e outros atletas que agem da mesma forma e conscientizar de que o esporte pode ser tão maravilhoso de jogar como de se criar uma personalidade com valores saudáveis e uma pessoa digna. O esporte é tão maior do que vitórias. Que as vitórias, um dia, possam ser simples consequências do trabalho exercido dentro e fora dos campos e quadras da vida, que possam ser feitos de muito respeito ao próximo e trabalho de desenvolvimento pessoal, emocional e, se o desejo for, profissional.

Camila Salustiano

Camila Salustiano

Camila faz atendimentos na abordagem Terapia Cognitiva Comportamental, com traços de Mindfulness e Psicologia Transpessoal, englobando o ser humano como um todo em todas vertentes. Experiência em atendimento com crianças, adolescentes e adultos, incluindo necessidades especiais, atletas e dependência química.
Camila Salustiano