Falar sobre nossa vida sexual sempre foi um tabu. Há muito preconceito, mentiras e ideias equivocadas envolvidas quando o assunto é identidade de gênero. Quando há tentativas de trazer o assunto à discussão, muitas vezes a questão é tratada de um modo distante ou até como brincadeira, longe de ser um debate honesto e direto. Isto acaba impossibilitando um esclarecimento real sobre o tema.

A discussão sobre a homofobia, direitos LGBT, casamento gay, e outros tantos, parecem instigar uma reação furiosa de parte da sociedade que invoca valores religiosos ou o combate àquilo que enxergam como depravação ou perversão. Mas porque isso ocorre? Há uma boa dose de confusão relacionada ao tema e isto é compreensível diante da complexidade do assunto e a conhecida dificuldade da sociedade em lidar com ele.

Identidade de gênero: compreender as singularidades

Um provérbio árabe afirma que “a ignorância é a mãe da maldade”, então, se quisermos superar essa nossa dificuldade para abordar a questão, precisamos entender melhor as diferentes instâncias da sexualidade humana, considerando principalmente sua amplitude e a singularidade de cada um de nós.

Cabe aqui fazer uma distinção. Primeiro há a questão de identidade de gênero, e são dois gêneros definidos biologicamente. Trata-se de um menino ou menina. Isto está definido geneticamente e são raros os casos de hermafroditismo, ou seja, dificilmente é esse o foco das discussões.

Acontece que a sexualidade humana traz duas outras instâncias, a da identidade e da orientação sexual. A questão de identidade é muito mais subjetiva que aquela da fisiologia. Um menino pode se perceber como menina e vice-versa. A sensação é que a pessoa nasceu em um corpo errado. Pode soar ilógico, mas a ideia de que o corpo está errado surge porque a identidade sexual é algo de natureza mental. Não se dá portanto a partir da constatação do sexo genital do indivíduo, pelo menos não necessariamente.

Isto muitas vezes acontece desde muito cedo, muito antes mesmo da criança ter qualquer ideia a respeito das questões sexuais do mundo adulto e antes de qualquer possibilidade de influência externa. A ciência, até o presente momento, não consegue apontar para as causas dessa discordância entre sexo fisiológico e a identidade de gênero.

Cabe aqui ressaltar que a ideia de que existe apenas duas possibilidades bem marcadas e definidas, macho e fêmea, homem ou mulher, não é correta, ou melhor, não contempla todas as possibilidades. Estamos acostumados a ver a questão de identidade sexual de forma polarizada, binária. Colocando de um modo grosseiro, não se trata de um botão com duas possibilidades de seleção: homem-mulher. Assemelha-se a um seletor continuo que permite inúmeras graduações.

Orientação sexual

Por fim, há a questão da orientação sexual. Esse aspecto define para qual sexo está dirigido o desejo, ou seja, se a pessoa, independente do seu sexo (e identidade), sente atração por homens ou mulheres, ou ambos. Como o que ocorre com a questão de identidade, a orientação sexual também não pode ser definida por duas possibilidades contrárias. Pessoas 100% heterossexuais e pessoas 100% homossexuais ocupam os pontos extremos de uma escala que também apresenta infinitas combinações.

Essas três instâncias atuam de forma independente. Assim, um menino pode se entender como do sexo feminino, seria portanto, “transgênero”. Ele(a) pode sentir atração por meninos, o que faria dele heterossexual se considerarmos sua identidade feminina. Se seu desejo está direcionado para meninas, seria homossexual, porque mesmo sendo geneticamente menino, se entende como menina. Confuso?

Talvez a dificuldade para compreensão esteja no fato que sempre preferimos ver essas coisas de modo muito fechado e definitivo: um menino tem corpo de menino, deve se sentir confortável em ser menino e fazer coisas de menino e deve, sobretudo, desejar meninas.

Do mesmo modo que não temos controle algum sobre nosso sexo genital, também não temos qualquer domínio sobre nossa identidade e orientação sexual. Apesar de ser frequentemente descrita como “opção sexual”, o termo não é adequado porque não se trata de algo que se submete a nossa vontade. Se aceita hoje que a definição da orientação sexual é multifatorial, ou seja, talvez sofra influências genéticas mas certamente não é exclusivamente definida por isso.

Compreender para eliminar os preconceitos

Assim, entender essas questões como depravação ou comportamentos inadequados não contribui em nada para a construção de uma sociedade mais inclusiva, ao contrário, instiga o preconceito e amplia o sofrimento daqueles que não se enquadram na “regra”. A repressão sexual, sabidamente sob o domínio das religiões modernas, teve um imenso papel no sentido de manter o assunto sob o tapete. O desvio era tido como pecado e muitas culturas puniram exemplarmente quem fosse identificado.

Ainda hoje as pessoas que se reconhecem diferentes acabam enfrentando grande sofrimento. Seja pela ignorância da família e dos amigos, seja por enfrentarem dificuldades numa sociedade que por hora ainda não consegue garantir direitos iguais, e que está muito fixada numa concepção de mundo que de fato nunca existiu.  Porque mesmo numa realidade heterossexual, há uma enorme diversidade e ela pode ser facilmente constatada.

Sem dúvida alguma é aconselhável que a pessoa que vem passando por essas questões todas e que muitas vezes também não têm entendimento adequado disso tudo, procurem ajuda de profissionais que possam auxiliar no processo de compreensão e aceitação.

Quer conversar com um profissional sobre assunto? Se tiver com dúvidas e quiser um aconselhamento especializado, agende uma sessão de orientação comigo ou com outro dos nossos especialistas aqui.

Francisco Giafferis

Francisco Giafferis

Formado pela Universidade Federal do Paraná, trabalho com psicologia clínica há 12 anos. Especializado em Psicologia Corporal, busco auxiliar o paciente na visualização de um cenário mais amplo que possibilite enxergar suas questões e escolhas por novas perspectivas, além daquela habitual.
Francisco Giafferis