Se pensarmos em termos do que mudou em duas ou três décadas, veremos que houve um enorme crescimento das expectativas em termos do que se espera da vida, não é? Para nossos avós, ou mesmo para os pais de alguns de nós, o plano talvez se resumisse a casar, ter uma casa própria e constituir família. Claro, se houvesse possibilidade de ter um “carrinho”, fazer uma viagem por ano para o litoral (a mesma praia), seria a realização de um sonho. Casava-se na igreja da cidade. Na igreja mais importante se tivesse dinheiro, ou sorte.

Hoje a coisa mudou drasticamente. Busca-se muito mais e a lista de desejos a realizar é imensa, quase infinita. Temos que escolher a profissão que nos fará felizes e esperamos sentir essa felicidade no trabalho dia-a-dia. Esperamos encontrar a pessoa dos nossos sonhos e construir uma família perfeita. O casamento e o nascimento dos filhos viraram verdadeiros espetáculos.

O sonho é encontrar sua alma gêmea e casar-se na praia, na montanha, talvez no Caribe, ou Dubai, quem sabe? Levam-se meses planejando cada detalhe e nada pode dar errado, como se fosse possível controlar tudo no universo, o clima inclusive. A gravidez é outro momento que tem que ser dividido com o restante do mundo, televisionado se possível. Não há espaço para sensações e sentimentos que não estejam de acordo com o script de um “sonho se tornando realidade”. Mas será que isso é possível?

Há mesmo uma alma gêmea ou essa é outra ideia idealizada? O casamento é a concretização de um sonho de felicidade que permanece intacto para sempre ou é apenas o começo (ou meio) de um processo de convivência que exige investimentos constantes? Nesse sentido parece que nossos avós tinham muito mais chances de concretizar seus sonhos e parece também que seria mais fácil encontrar alguém que se considerasse feliz naquela época.

De fato, parece que quanto maior a lista do que precisamos para nos sentirmos satisfeitos, menor é o sentimento de realização. Pouco se vive na satisfação de algo que foi conquistado. Imediatamente passamos a perseguir o próximo item da lista.

Você se sente especial?

É bastante frequente receber no consultório pessoas que se queixam de não estarem vivendo uma vida intensa, cheia de acontecimentos importantes, como “deveriam”. Sim, porque de fato elas estão certas de que são o personagem principal de uma história de sucesso. Essas pessoas têm mesmo razão para estarem infelizes ou são vítimas de uma crença irreal?

Nessas últimas décadas passamos a reproduzir a ideia de que somos todos especiais e assim, somos merecedores de uma vida invejável. Mas se somos todos especiais, o conceito de especial se esvazia. Especial, por definição, significa algo diferente do comum, algo que se sobressai. Ao contrário, comum é aquilo que será encontrado com frequência, ou seja, o que será destinado à maioria.

Cuidado aqui. Sentir-se especial parece estar ligado a uma boa autoestima mas isso não é correto. A verdadeira autoestima tem a ver com se sentir bem sendo quem você é e não depende de uma imagem grandiosa de si mesmo, de uma crença em ser melhor que os demais.

Esse é outro equívoco muito frequente. Sentir-se especial tem muitas vezes um efeito muito mais prejudicial do que positivo, porque se parte, na maioria das vezes, de uma ideia infundada de superioridade e merecimento. Por outro lado, aquele que tem boa autoestima compreende que suas conquistas dependem diretamente de seu esforço.

Realidade deslocada

Obviamente não há nada de errado em buscar realização profissional, um relacionamento afetivo de qualidade, bem estar, etc. A questão é mais sutil. Tem a ver com um descolamento da realidade ou um olhar pouco crítico dela. Julgar-se destinatário de algo sempre muito acima da média pode ser perigoso inclusive porque a ideia é que aquele futuro maravilhoso está reservado a mim e basta eu esperar para concretizá-lo. Ansiedade, frustração e sofrimento costumam afetar essas pessoas à medida que suas expectativas não se concretizam.

O descolamento da realidade é fato porque na vida as conquistas não se mantém sem esforços adicionais. Como naquela metáfora sobre andar de bicicleta, é preciso continuar pedalando para manter o equilíbrio. Podemos olhar para relacionamentos ou trabalho dessa forma. O investimento continua sendo sempre necessário. Não há longos caminhos feitos somente de descidas. Grande parte do sofrimento está exatamente na crença equivocada de que as coisas deveriam ser fáceis.

Achar que os problemas não fazem parte da vida pode ser o problema. Entender que os processos são contínuos parece cansativo, mas na verdade é uma grande mudança de perspectiva, onde foco não é apenas a conquista final de um plano. Pessoas que passam a ter esse olhar aproveitam melhor o percurso. É uma boa ideia rever ocasionalmente nossas ideias e ideais.

 

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Francisco Giafferis

Francisco Giafferis

Formado pela Universidade Federal do Paraná, trabalho com psicologia clínica há 12 anos. Especializado em Psicologia Corporal, busco auxiliar o paciente na visualização de um cenário mais amplo que possibilite enxergar suas questões e escolhas por novas perspectivas, além daquela habitual.
Francisco Giafferis